O ESPÓLIO NÃO CAI DO CÉU
Um dia desses, um telefonema de Camila Miguéis. Havia um tom de mágoa dentro do meu auscultador. New York é Já ali em baixo. Ao telefone, mesmo ao pé da porta. Não, das linhas não era certamente... e Camila não fala assim. Mas falou dessa vez. Tinha saído em Lisboa um livro sobre o seu José, o Rodrigues Miguéis, da autoria de um grande amigo dele, Mário Neves (J. R. Miguéis Vida e Obra. Caminho, 1990). Fazia uma censura velada e delicada, acrescente-se ao facto de ela ter oferecido o espólio do escritor e marido à Universidade de Brown em vez de oferecê-lo a Portugal. O pior não era isso. Tal comentário, em livro, fica na estante, pois em Portugal quase ninguém lê ensaios. Para mais, no contexto do livro, muito simpático para com Miguéis e a sua obra, era pormenor de somenos. Mas os jornais, sempre à procura de um escandalozinho e de motivo para se entregarem ao prazer da bordoada moral, tinham pegado e espremido a queixa a seu gosto. Camila leu-me, por exemplo, um parágrafo d'A Capital, que me prometeu e enviou pelo correio de seguida. A paulada batia assim: "É também com visível discordância que Mário Neves comenta o destino dado pela viúva ao legado pessoal e literário do escritor: 'O espólio de Miguéis foi entregue por D. Camila a uma universidade americana, privando assim os portugueses de um património com inestimável valor cultural.'"
Não foi preciso ser muito intuitivo para perceber ao que vinha aquele desabafo. Era altura de eu vir a terreiro e limpar-lhe a memória, confessando o crime. Prometi fazê-lo, embora sem saber bem como.
Algum tempo depois, telefona José Carlos de Vasconcelos. O JL preparava um número especial sobre a cultura portuguesa no mundo, e pedia um depoimento da América. Mas tratava-se de uma temática para ficar no activo. Quer dizer que, depois de satisfazer a encomenda, poderia enviar outros flashes sobre a cultura portuguesa na América para publicação em números posteriores. É ao que venho hoje. Começarei por umas pinceladas de contexto.
A primeira década americana de Miguéis foi de activismo intenso. Envolveu-se sobretudo com os grupos políticos hispânicos e antifranquistas. Eram os anos trinta e quarenta. Depois dessa fase que o desiludiu, entregou-se à escrita. Em português. Falando inglês muito bem, reconheceu não poder ser essa a sua língua de criação. Apenas um conto aparece em inglês numa antologia de ficcionistas europeus. Até morrer em 1980, Miguéis foi uma ilha portuguesa na ilha de Manhattan, construindo ano após ano um arranha-céus de literatura, invisível a olhos anglos. Era de Portugal que se podia vê-lo. De lá, e dos poucos e minúsculos ilhéus dispersos América fora, onde os espanhóis toleravam que se ensinasse português.
Miguéis morreu assim nesse mausoléu que Aquilino terá dito ser a língua portuguesa. Na Universidade de Brown, a gente de um Centro de Estudos Portugueses recém-formado ainda tentou trazê-lo para uma conferência, mas ele cancelou à última hora. A saúde já não lhe permitia dispêndios exagerados de esforços para além do deambular quotidiano pelas ruas de New York. No entanto, um ano depois da sua morte realizava-se na Brown um simpósio sobre a sua obra. Havia já uma tese de doutoramento sobre o escritor, pelo professor John Kerr Jr., um dos presentes no encontro, tese, por sinal, dirigida por Jorge de Sena, falecido dois anos antes de Miguéis. De Kerr era também o livro Miguéis To the Seventh Decade, cuidadosa biobibliografia, indispensável a qualquer estudioso do escritor. Falta apenas mencionar outra tese, de Maria Angelina Duarte, ainda não publicada.
Fez-se o propósito de divulgar a obra do escritor em inglês, e só aos poucos isso tem sido concretizado. Primeiro, a publicação das actas, num volume a que dei o nome de José Rodrigues Miguéis Lisbon in Manhattan. Depois, a primeira colectânea de contos em tradução, da responsabilidade de George Monteiro, Steerage and Ten Other Stories, publicado pela Gávea-Brown, editora do mencionado Centro. A seguir saiu, na University Press of New England, uma outra de Um Homem Sorri à Morte com meia-cara, que o tradutor George Monteiro chamou A Man Smiles at Death with half a face.
É neste retrato, que contrasta um tanto com ó "tão grande interess" de que Miguéis "tem sido alvo nos Estados Unidos", onde os estudos sobre ele não têm a "larga divulgação", de que fala Mário Neves no seu livro. Mas esta distorção não lhe é exclusiva. A imprensa portuguesa tem o hábito de fazer essas ampliações desmedidas. Mário Neves deve, aliás, ter forçado a tecla para vincar o contraste com o silêncio que sobre Miguéis em Portugal se fez. (Dir-se-ia melhor: esquecimento.) Queixara-se o escritor da passagem desapercebida, entre os críticos do seu país, de um romance de grande fôlego como O Milagre Segundo Salomé e de outras desatenções à sua escrita. Nada se alterou. Só dez anos depois de morrer lhe publicam uma biografia e, assim mesmo, graças à amizade de Mário Neves. (Os dois leves reparos aqui feitos não devem de modo nenhum subtrair mérito ao livro.)
Camila esteve, ao longo de todos estes anos, em contacto frequente com o Centro da Brown única instituição a promover a obra do marido. Mais do que uma vez deixou transparecer os seus escrúpulos sobre o destino do espólio. Receava poder desaparecer também um dia sem ter dado bom caminho aos papéis e à biblioteca do escritor.
De Portugal, era o já dito silêncio. E toda a gente da cultura sabia que Miguéis era morto. E que teria um espólio, naturalmente. Mas andava-se distraído destas coisas. A política era tudo e não havia surgido ainda o actual interesse generalizado pela "cultura". Recordo-me de ter abordado a editora de Miguéis para fazer sair em edição portuguesa o volume com as actas do simpósio da Brown. A resposta desculpava-se, explicando não ser rentável e que isso deveria interessar era ao público americano, não ao português. (Guardo a carta.)
Um dia, George Monteiro, doente crónico de bibliotecas e desde muito envolvido com a John Hay Library de Brown, especializada em Americana, veio com a sugestão de libertar Camila do seu pesadelo, trazendo o espólio para a Brown. A ideia foi rapidamente aceite por todos os envolvidos.
A mim coube o papel de bagageiro. Aluguei um U-Hall uma carrinha espaçosa bastante para carregar uma biblioteca no ventre e lá fui a acelerar pela estrada 95 abaixo, na companhia de José Brites, então aluno. Foi um dia a empacotar caixotes, e a carregá-los às costas do 11º andar para a carrinha. Valeu-nos o elevador. Mas só quem não sabe de estacionamentos em New York imaginará termos conseguido um junto ao prédio. De regresso, e com ginástica para uma semana, o Zé e eu parámos num café da Quinta Avenida, e recordo-me de ter garatujado umas linhas sobre aquela aventura. Perdi os papéis, mas recordo que metia D. Quixote e Sancho Pança (não sei quem era quem, se o Zé e eu tínhamos ambos bocados dos dois), Pascal e as razões do coração que a cultura portuguesa no estrangeiro tem e Portugal não entende, e não sei que mais. (Como o leitor pode ver, nada se perdeu com o desaparecimento do meu manuscrito.)
E foi desse modo que se perpetrou o crime. Os livros e todo o espólio foram profissional e mimosamente tratados. A Gulbenkian, solicitada, colaborou. De todos os manuscritos vão seguir microfilmes para a Biblioteca Nacional de Lisboa, como foi acordado, pelo que nenhum português tem razão de vir chorar nos jornais a grande perda para a cultura portuguesa que terá sido a oferta de Camila à Brown.
Morre um estrangeiro em Portugal e os portugueses naturalizam-no. Morre um português, quase esquecido metade da sua vida no estrangeiro, e por que razão há-de a esposa, americana, oferecer a Portugal o que ninguém se mostrou interessado em adquirir?
Para salvaguarda do patriotismo luso e da honra nacional, espero que valha alguma coisa o facto de os dois ladrões assaltantes do 11C do número 40 da First Avenue serem cidadãos portugueses. Ficou assim tudo dentro da tão badalada Comunidade Lusíada. E o espólio do autor de O Pão Não Cai do Céu ficou em casa. Na América, que também foi sua. Por escolha dele.
In: Onésimo Teotónio Almeida, Que nome é esse, ó Nézimo? E outros advérbios de dúvida
Edições Salamandra Lisboa 1994