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JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS

Leituras

José Rodrigues Miguéis

 
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Leituras

Tony é transmontano, lá de cima das arestas de Chaves, pequeno, robusto, de grandes olhos sonhadores na face pálida, ossuda e cavada; português até ao cerne no carácter, nos impulsos do génio (que em geral sabe conter), na bondade, no amor.
 Ele é lavador de janelas, window washer, mas sabe onde tem o nariz: conhece de leis e organizações, direitos e deveres. Lê os jornais, é membro de sociedades, e está sempre ao corrente do que vai por esse mundo.  É um português "integrado". Trabalha das oito às quatro, todos os dias menos ao domingo, e não falta, apesar disso, a uma reunião, a uma festa de solidariedade.
 Quando trabalhou no Chrysler Building, lavava as janelas todas de trinta e quatro andares sem nunca pôr o cinto...
 - Ah, era solteiro! - diz Tony, como escusa da temeridade.
 - Depois que casou e tem filhos é que tomou juízo. Olhe que nem no pino do Inverno este ladrão veste a jaqueta!
 - E não tem frio?
 - Frio! Se você tivesse que lavar e limpar numa tarde todas as janelas de dois andares do Park Central Hotel, já veria o que é calor! Aquele ventinho lá em cima até regala a gente.
 Às vezes são quinze e vinte graus abaixo de zero...
 Cerca de trinta mil homens ganham assim a vida em Nova Iorque.

Gente da Terceira Classe


Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água-furtada e meu refúgio, e digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui como num céu aberto. Nem faz ideia. Onde isso vai, parece que não, os dias passam devagar, mas os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não há remédio.

Foi nos tempos da República, e eu, de calção, com os sapatos nas poças da chuva, travava os primeiros corpo a corpo com a gramática latina e com o verbo Amar. A Avenida era então novinha em folha, como o regime. Começava lá em baixo, num boqueirão sinistro, um rio de lama onde às vezes havia inundação e gritos, entre ribanceiras e prédios esguios, e ia-se perder ao alto, nas quintas e azinhagas.

Saudades para Dona Genciana

Páscoa Feliz

>> Excerto de Páscoa Feliz

>> Excerto de Passos Confusos


 

Quero que tu me fales -

seja um momento só -

das serras e dos vales

por onde geme o vento

que as lágrimas secava que chorei:

Ah, que eu nasci para trepar montanhas

e arrasto-me na sombra do subway

Poema de 1942
inédito durante a vida do autor