Tony é transmontano, lá de cima das arestas de Chaves, pequeno,
robusto, de grandes olhos sonhadores na face pálida, ossuda e cavada; português até ao
cerne no carácter, nos impulsos do génio (que em geral sabe conter), na bondade, no
amor.
Ele é lavador de janelas, window washer, mas sabe onde tem o nariz: conhece de leis
e organizações, direitos e deveres. Lê os jornais, é membro de sociedades, e está
sempre ao corrente do que vai por esse mundo. É um português
"integrado". Trabalha das oito às quatro, todos os dias menos ao domingo, e
não falta, apesar disso, a uma reunião, a uma festa de solidariedade.
Quando trabalhou no Chrysler Building, lavava as janelas todas de trinta e quatro
andares sem nunca pôr o cinto...
- Ah, era solteiro! - diz Tony, como escusa da temeridade.
- Depois que casou e tem filhos é que tomou juízo. Olhe que nem no pino do Inverno
este ladrão veste a jaqueta!
- E não tem frio?
- Frio! Se você tivesse que lavar e limpar numa tarde todas as janelas de dois
andares do Park Central Hotel, já veria o que é calor! Aquele ventinho lá em cima até
regala a gente.
Às vezes são quinze e vinte graus abaixo de zero...
Cerca de trinta mil homens ganham assim a vida em Nova Iorque.Gente
da Terceira Classe
Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água-furtada e meu refúgio, e
digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui
como num céu aberto. Nem faz ideia. Onde isso vai, parece que não, os dias passam
devagar, mas os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não há
remédio.
Foi nos tempos da República, e eu, de calção, com os sapatos nas poças da chuva,
travava os primeiros corpo a corpo com a gramática latina e com o verbo Amar. A Avenida
era então novinha em folha, como o regime. Começava lá em baixo, num boqueirão
sinistro, um rio de lama onde às vezes havia inundação e gritos, entre ribanceiras e
prédios esguios, e ia-se perder ao alto, nas quintas e azinhagas.
Saudades para Dona Genciana |

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Quero que tu me fales -
seja um momento só -
das serras e dos vales
por onde geme o vento
que as lágrimas secava que chorei:
Ah, que eu nasci para trepar montanhas
e arrasto-me na sombra do subway
Poema de 1942
inédito durante a vida do autor |