Mudança de posto
Toda a manhã tinha chovido. Pelas duas da tarde a chuva persistia: ligeira, monótona e tranquila. Havia um silêncio pouco habitual na casa, no ar, no ambiente. Das janelas avistava-se um mundo quase opressivo de brancura e pureza: o Tejo, oculto pela cortina da névoa e da chuva, o casario a esbater-se, com a distância, numa paisagem de fantasmagoria urbana - telhados e chaminés, panos de paredes flutuando, sem peso... Daquele abismo sem forma nem limites vinha a espaços o mugir das sereias de vapores e o ranger de cadeias e guindastes no cais e estaleiros.
A família tinha saído logo depois do almoço, para ir passar o fim-de-semana em despedida na quinta dos MacPherson, em Vila-Rica. Eu pretextara afazeres urgentes para me esquivar a ir. Não queria deixar Lisboa. Errando sozinho pela casa, perplexo e antecipadamente nostálgico como sempre que me preparo para mudar de posto, dei comigo na cozinha, à procura já não sei de quê. Ouvi bater à porta de serviço, avistei um vulto através das cortinas, e fui abrir. Era uma rapariga morena, de feições finas, o cabelo escuro empapado de chuva como o xaile esburacado e os trapos que a vestiam. De pé, encostada à ombreira, a olhar-me com um misto de interrogação e zombaria nos olhos rasgados, um pouco oblíquos, orientais, tão comuns nesta gente, e que sempre me intrigam e perturbam. Não teria mais de dezanove anos. Descalça, com o pé esquerdo apoiado no peito do pé direito, como se quisesse evitar assentá-los ao mesmo tempo nos mosaicos alagados do patim desabrigado. Estava grávida - de barriga à boca, no pitoresco dizer da terra.
- Compre-me uma cautelinha - disse.
- Não jogo.
- Então dê-me alguma coisinha pelo amor de Deus.
Aquela pobreza e a gravidez precoce confrangeram-me. Pensei no hábito detestável que têm as nossas mulheres de empinar o ventre ostentosamente, quase agressivamente, como a exibir um milagre nunca visto ou a lançar-nos em rosto a responsabilidade do seu estado, de que no fundo se orgulham tanto. Ficámos a olhar um para o outro até que eu disse. - Entre, não fique aí à chuva.
Ela entrou sem hesitar. Fechei a porta.
- Que idade tem?
- Vou nos dezoito.
Apontei-lhe o ventre, que parecia atravancar a cozinha:
- E isto?
Ela esboçou um sorriso e encolheu os ombros:
- Oh...
- Tem pai?
- Tem e não tem.
- Sabe quem é?
Ergueu as sobrancelhas numa expressão de dúvida quase bem-humorada:
- Calculo. Mas não tenho a certeza.
Havia então mais de um. Não insisti. O coração batia-me.
- Sente-se.
Sentou-se num banco de pinho entre a mesa e a janela, olhei em volta, que podia eu oferecer-lhe? Em cima do fogão estava uma panela. Destapei-a: era sopa de legumes que a Balbina, previdente, me tinha preparado.
- Comia um prato de sopa?
- Pudera não!
Acendi o gás, tirei pratos e copos do armário, talheres e um guardanapo da gaveta, e pus-lhos em frente. Cortei um quarto de pão, deste pão trigueiro e cheiroso como o não sabemos fazer na terra-mãe dos cereais. No frigorífico encontrei peixe cozido com batatas: pus-lho também na mesa, frio como estava. Depois, o galheteiro e uma garrafa de vinho tinto. Ela olhava para mim sem falar, vagamente irónica, infantil, mas adulta. Embaraçado, acendi um cigarro.
- A família tem? - indaguei, esforçando-me por aparentar indiferença.
- Tenho mãe e quatro irmãos. Um mais velho e três mais novos.
- Vivem juntos? - Hm, hm. O mais velho nunca pára em casa. Anda lá não sei por onde.
- E pai?
Abanou a cabeça negativamente.
- Trabalham?
- O mais velho, mas é só quando calha.
- As cautelas dão para viver?
- Quase nada.
- Esmolas?
- Que remédio.
A sopa estava quente, servi-lha. Comeu calada, com sofreguidão, arrancando dentadas ao pão, que engolia quase sem mastigar, ou assim me pareceu. Eu olhava-a e fumava, de pé, sem pensar. Alguma coisa pensava por mim. Dei-lhe segundo prato de sopa e enchi-lhe o copo de vinho. Ergueu os olhos castanhos e sorriu-me:
- Vai-me dar na fraqueza!
Os dentes eram brancos e perfeitos.
- Eu faço-lhe companhia.
Enchi um copo de whisky e bebi-o quase todo de um trago. Ela riu-se. As cores tinham-lhe subido ao rosto delgado e regular, de uma frescura de flor molhada. Lavada da chuva e curtida de ar livre e sol, a sua epiderme tinha um tom cálido. As gotas de chuva luziam suspensas do cabelo crespo e emaranhado. Pude admirar à minha vontade os traços duma beleza delicada e firme, banhada de um estranho misto de malícia e doçura, que é tanto do carácter português. Comendo, ela conservava um pé em cima do outro. O calor da cozinha tinha-os enxugado, e estavam menos vermelhos, embora com as veias salientes. Pareciam grandes e bem modelados, com esse desvio do dedo maior, peculiar dos pés habituados a andar descalços e a "agarrar" o chão, que vemos nas estátuas gregas. As pernas eram delgadas, bem feitas e brunidas. A olhá-las, tive o sentimento repentino da intimidade daquele corpo juvenil deformado pela gravidez e deu-me uma leve tontura. Os dois ali a sós...
Acabou de comer e sorriu-me de novo, afogueada:
- Agora posso lavar os pratos?
- Então não bebe o café?
- Não senhor. Faz-me nervos. Pôs-se em pé. à vista daquele ventre tão cedo habitado e palpitante, o sangue latejou-me nas fontes. Para me distrair fui acender o esquentador de água. Risquei três ou quatro fósforos sem resultado, chamusquei um dedo, e ouvi-a rir nas minhas costas. Pouco depois ela lavava a louça com desembaraço, de ventre apoiado à pia de mármore. Eu não podia desfitá-la. Era só agarrá-la e... Voltei a sentar-me, tomei segundo whisky e acendi novo cigarro, tentando dominar o tremor das mãos. Passava das três e a luz do dia na cozinha tinha uma brancura leitosa e sedativa. Lavada a louça, ela olhou-me:
- E agora?
Não falou em se ir embora. Como se esperasse outra coisa. Eu tinha a boca seca, mas resolvi não beber mais. A ideia explodiu-me na cabeça:
- Gostava de tomar um banho?
Percebi para onde me empurrava a fantasia.
- Onde? numa banheira?
- Sim, na sala de banho.
- Nunca tomei.
- Nunca tomou banho?
- Na banheira. No mar sim, era eu miúda.
Pareceu alarmada ou irritada. Mas logo se riu, com um brilho travesso nos olhos e nos dentes:
- Pois sim.
- Não tem receio, depois de comer? Há pessoas que...
- Receio de quê? Ando sempre à chuva...
Levantei-me, resolvido a tudo. Estava em pleno sonho.
- Então venha.
Demos a volta pelo corredor e entrámos no quarto de banho, antro vasto e de aromas confusos. Ela ficou a olhar os esmaltes e os niquelados, as porcelanas, os vidros reluzentes; passou um dedo vagaroso na bacia do lavatório, mirou-se um instante no espelho, abriu o armário-farmácia com os inúmeros frascos e tubos de remédios, artigos de emergência, pastas e pós de dentes, e aparelhos de barbear. Depois contemplou a mesa de toilette com a saia vaporosa, ajoujada de perfumes, águas de colónia, loções capilares, pomadas e cremes para a pele e para a barba, adstringentes e deodorantes, escovas, bisnagas, pinças depilatórias, tesouras e limas, vernizes de unhas, gargarejos, atomizadores, pós de arroz e de talco, um senfim de batons de diversos matizes - todo o complicado arsenal de camarim de uma vida desafogada mas atormentada de angústias e pavores de impureza, doença, fealdade e morte. Aquele mundo asséptico, antisséptico, artificial, fez-me corar de vergonha. Percebi que odiava, e porque odiava, perfumes: um disfarce da simples natureza. Ela virou-se para mim:
- Tudo tão limpo! Parece um hospital.
- É um hospital - e pude sorrir. Apeteceu-me reduzir tudo aquilo a cacos. O olhar dela, ausente e macio, demorou-se em mim:
- O senhor é casado, pois é? É estrangeiro... Pela fala!
Fingi não ouvir ou não entender a pergunta, que traía tristeza e censura. Curvei-me para a banheira, fechei a válvula e abri as torneiras. A água quente jorrou com força, o vapor invadiu a atmosfera e foi-se condensar nas vidraças foscas da janela, nos espelhos e metais. A morna humidade do ar entorpecia, convidava ao relaxamento, à volúpia, à meditação. No esmalte branco, a água em repouso tinha a transparência luminosa duma áqua-marina. Apetecia entrar nela como num sonho, esquecer a chuva, o dia grisalho e monótono, a minha próxima partida. Disse-lhe:
- Agora dispa-se. Quer que eu me vá embora?
Ela riu-se, abanou a cabeça:
- Preciso da sua ajuda!
Tirei do armário duas toalhas e uma esponja. As mãos tremiam-me. Prometi a mim mesmo não tornar a beber antes de... Ela começou a despegar do corpo os trapos aderentes de humidade: a blusa encardida, a saia remendada, a camisa esburacada... De repente estava nua. Serena e risonha, com a mão esquerda a segurar o ventre, ergueu cautelosamente uma perna, depois a outra, e entrou na banheira que era funda. Ficou de pé, com água pelos joelhos, envolta em rolos vagarosos de vapor. Olhou-me com a audácia do pudor que desiste. Deixei de respirar por instantes. Saberia quanto era bela? Já alguém a teria admirado assim? Menos magra do que parecia à primeira vista, tinha os ossos delicados, mas era rija e madura e combinava as graças e a frescura da pouco mais que adolescente com a imponência da maternidade prometida. Nunca esta me parecera tão sedutora. Os peitos eram redondos, quase rígidos e de bicos aguçados. O ventre mostrava a curva alta da gravidez avançada, mas agora, é curioso, menos óbvia e agressiva. O púbis era uma sombra esfumada. Ficámos ambos imóveis a olhar-nos, ela orgulhosa, eu mudo de assombro. Até que consegui dizer:
- Agora deite-se ao comprido.
Receava com certeza escorregar e cair, pois fez uma careta e agachou- se um pouco, agarrada ao rebordo da banheira. Dei-lhe as mãos a ampará-la, sentindo-lhe a macieza e o calor magnetizante da pele.
Estendeu-se no fundo da banheira. O corpo, levemente deformado pela refracção e as interferências da água agitada, parecia estremecer, ondular em movimento de alga ou ninfa. Dei-lhe o sabonete e a esponja, e ela fitou-me, embaraçado inclinei-me e, sem falar, pus-me a lavá-la como a uma criança ou uma doente. Pareceu-me reconfortada e feliz. Ajudei-a a pôr-se novamente de pé, toda luzente de água e a desprender vapores. Abandonou-se às minhas mãos. Não houve recanto, plano ou volume do seu corpos que eu não acariciasse assim, devagar, sentindo-a estremecer sob as minhas palmas ensaboadas. A lisura polida das costas, a tensa proeminência do ventre, a curva robusta das coxas, o grosso das pernas. Era como um cego a tactear uma estátua viva. Ao tocar-lhe os seios, que tinham um brilho, uma elasticidade e uma dureza inesperadas, sentia-a respirar fundo e fraquejar, com as mãos crispadas no meu antebraço. Prolonguei quanto pude o ritual, de uma doçura e voluptuosidade quase místicas, para mim sem precedentes. No meu desejo havia um carinho infinito. A água ficava turva e grisalha. Despejei-a, tornei a encher a banheira, e repeti a operação, até que ela resplendeu de pureza.
Quando saiu enfim do banho, apoiando-se em mim, enxuguei-a com cuidados minuciosos, embriagado pelo aroma quente da sua epiderme, agora liberto. Meti-lhe os pés num par de pantufas e embrulhei-a num roupão de toalha. Ela deixou-me fazer tudo, calada, com uma docilidade infantil e uma gravidade gostosa. Não sei que distantes desejos em mim (ou nela) soterrados eu satisfazia assim.
- Não se vista! - disse-lhe eu, e corri ao roupeiro do quarto vizinho. Lúcido mas impensado - sentia-me voltar a algo de irreal e generoso, uma adolescência restituída - procurei roupas que lhe servissem. Havia ali de tudo, em pilhas metodicamente arrumadas nas prateleiras, artigos usados que a nossa saciedade de puritanos reservava para distribuir, em vésperas de partida, pelos pobres e pelas instituições de caridade, se não vender por meio de anúncio no Anglo-American News. (E era excesso de bagagens que evitávamos!) Escolhi um par de panties elásticos e uma combinação arrendada, ambos cor-de-rosa, mas não me atrevi a tocar nos soutiens, de que aliás ela não precisava. Depois um par de meias de nylon, uma saia de lã axadrezada, e uma blusa de algodão azul-pálido, muito fino. Mas como substituir o xaile? Achei uma jaqueta ou bolero em boas condições. A família nem daria pela falta de nada. E se desse... Creio que não cheguei a pensar nisso.
Voltei com o braçado de roupas para junto dela. A atmosfera tornara- se de banho turco ou sauna, opaca e abafante. Encontrei-a de cabeça baixa, sentada no banquinho ao lado da banheira, com os pés descalços na felpa do tapete. Tinha se desembaraçado do roupão até à cintura. Sorriu-me:
- Estava a suar!
Levantou-se, veio direita a mim através da névoa, trigueira e esbelta, de ventre erguido, enlaçou-me nos braços e aproximou o rosto do meu até se tocarem. Os seus olhos lunares, desmesurados, encheram-me o campo de visão como quando as crianças fazem "olhos-de-mocho". Murmurou:
- Como é que eu lhe hei-de pagar isto? Não quer nada de mim? A sua boca perdeu-se de repente à minha, com a força duma ventosa; os seios comprimiram-se contra o meu peito. A trouxa das roupas, que eu não tivera tempo de largar, separava-nos; devo dizer que nos salvou? (De quê?) Mudo, eu estalava de desejo e tremia no esforço de me conter. E porque me continha? Ficámos assim um longo momento, a aspirar-nos mutuamente em silêncio. O corpo dela vibrava e enlanguescia alternadamente. Separei-a de mim quase com violência e disse-lhe:
- Aqui tem as roupas. Veja se lhe servem.
Fitou-me um instante com um olhar líquido e bom em que primeiro o espanto, porventura o desejo, a gratidão, talvez, e por fim a ironia se espalharam, e começou a vestir-se. A sua expressão tornou-se quase instantaneamente a duma criança que brinca com roupas de adultos. Eram talvez um quase nada folgadas de mais para aquele corpo apenas saído da adolescência. Mas os seios encheram a blusa a estalar, e o ventre estirou a saia de lã grossa. A jaqueta era aconchegada e assentava-lhe bem. Diante do espelho, passou um pente no cabelo ainda húmido, mas agora mais claro, de um castanho crestado. Era outra: mulher, bela e fresca. Só o sorriso de contentamento era ainda infantil. Não tendo achado um par de sapatos que lhe servissem - eram todos, afinal, demasiado grandes para aqueles pés de Vénus vagabunda e jovem! - dei- lhe um par de sandálias rasas.
Fez uma trouxa com as roupas que despira. Voltámos à cozinha.
- Ainda não me disse o seu nome.
- Amália.
- Como a...?
- Sim.
- O meu é Bob. Rima com Job. É melhor sair pela escada de serviço. A porteira não a viu entrar?
- Ninguém me viu.
- Se ela aparecer e lhe disser alguma coisa, mande-a apitar cá para cima.
Abri a porta-janela. Já não tremia. A chuva continuava a cair, agora fina, mansa, com um sussurro casto e fatigado. O Tejo, ainda invisível, era um pressentimento de tons verdes na neblina ondulante. Já no patim, ela voltou-se com gravidade:
- O senhor tem filhas?
A pergunta sobressaltou-me.
- Tenho duas. Uma é quase da sua idade.
Ficou a pensar um momento, de cabeça baixa, depois disse: - Então adeus, e obrigada!
- Não tem de quê. Adeus.
Na escada, de novo mendiga à chuva, tornou a parar e olhou-me. Julguei ver-lhe os olhos molhados. Em todo o caso sorriu com ironia:
- Obrigada por me ter respeitado!
Estrangulado de ternura e pena, não pude responder. Fechei a porta, amargo e confuso, arrependido talvez de não ter vencido os meus escrúpulos, de a ter "respeitado", de querer talvez mais ao desejo do que à posse, mais à virtude que à alegria. Só então percebi que era amor, e não apenas desejo, o que eu sentia. E que o amor me inibira.
A solidão da casa pareceu-me irrespirável, a neblina e a chuva, lá fora, um muro de prisão, a vida um deserto. Porque ia eu deixar isto, a que me prendiam invisíveis laços? Enchi de novo o copo de whisky. E de repente, quando o levava à boca, sem saber porquê, estilhacei-o contra o alisar da chaminé. Porque é que eu não tinha acompanhado a família a Vila-Rica? Que esperanças tinha eu, secretas? Sou um homem que não pode passar sem as suas cadeias!
Na semana seguinte embarquei para Istambul, a ocupar o meu novo posto. Como se não tivesse completado a minha missão em Lisboa. Ou no mundo.
in:
Paç/ssos confusos - 2ªedição
Obras Completas de José Rodrigues Miguéis
Editorial Estampa - Lisboa 1982